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Ato público nacional sai em defesa da Rede de Atenção Psicossocial


LEOPOLDINA

Realizado também em Leopoldina, movimento é contra o retorno dos hospitais psiquiátricos.

Da Redação
Jornal O Vigilante Online

 Um ato público em defesa da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) foi realizado em Leopoldina na tarde desta terça-feira, 12 de setembro, com a participação de aproximadamente 100 pessoas. O movimento denominado “Abraça RAPS”, aconteceu em todo o país e dentre as pessoas que participaram do protesto estavam pacientes, familiares, trabalhadores e profissionais da saúde mental, usuários do serviço e simpatizantes da causa.

Exibindo faixas, cartazes e bandeirinhas, a caminhada teve início no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), localizado na Rua Omar Resende Peres, s/nº, Bairro São Cristóvão, de onde os manifestantes seguiram até a frente da sede da Gerência Regional de Saúde (GRS) na Rua Ribeiro Junqueira, como forma de pedido de socorro para que o CAPS possa continuar em funcionamento. Por volta das 14h00 o movimento rumou para a Praça Félix Martins, onde todos deram um grande abraço em favor da RAPS, cantaram e gritaram palavras de ordem, retornando em seguida para o CAPS.

 De acordo com a Superintendente de Saúde Mental em Leopoldina, Ana Carla Alvarenga Pimentel, tem sido veiculada na mídia a discussão sobre a possível volta do modelo psiquiátrico manicomial, defendido pelo coordenador Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde, Quirino Cordeiro. Por trás de um discurso de suposta “eficácia”, querem retomar o modelo de trancar os pacientes psiquiátricos, um retrocesso sem tamanho no tratamento da saúde mental. “Nós fomos pegos de surpresa com este assunto. O coordenador nacional de saúde mental, álcool e outras drogas, indicado pelo nosso presidente Michel Temer, o Quirino Cordeiro, trouxe em pauta na reunião de 31/08/17 com o Ministério da Saúde e Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) a possível reabertura dos manicômios psiquiátricos, alegando que os serviços substitutivos estão sendo muito onerosos, mas na realidade ele não avaliou os ganhos, e hoje falar em voltar aos manicômios seria um grande retrocesso”, afirmou Ana Carla.

“A luta antimanicomial comemorou 30 anos no último dia 18 de maio e apesar dos avanços ao longo destas três décadas de conquistas, eles ainda precisam continuar acontecendo. Pensar na possibilidade de retrocessos é inadmissível pra nós”, comentou a Superintendente de Saúde Mental.

 Sobre a manifestação desta terça-feira, que contou com a participação de vários profissionais da saúde mental, pacientes, familiares e usuários do serviço, Ana Carla esclareceu que antes de sair em caminhada pela cidade trazendo essa reflexão para compartilhar com toda a sociedade ela e sua equipe esteve conversando com eles sobre como era antes de conhecerem o tratamento desenvolvido no CAPS, com acompanhamento pela equipe multiprofissional, onde eles são tratados em liberdade, onde é trabalhada dia a dia a reinserção social de cada um deles e sua autonomia. “Precisamos devolver a essas pessoas tudo aquilo que foi tirado ao longo de séculos e séculos da nossa história”, observou Ana Carla Pimentel, acrescentando que com o fim pretendido dos CAPS e dos serviços substitutivos em saúde mental, como os leitos de retaguarda em hospital geral, o destino de todas estas pessoas seria o retorno para os hospitais psiquiátricos, os manicômios. “Não podemos nem imaginar que isso possa vir a acontecer, porque é algo totalmente inadmissível para nós, ver cada um deles hoje tendo a sua dignidade resgatada, pensar que eles poderão perder tudo isso novamente… eu não consigo acreditar! E nós não podemos ficar de bocas fechadas, precisamos sim, ir para as ruas, abraçarmos a RAPS e gritar para que não fechem os CAPS”, declarou.

 Apesar do governo federal não ter feito nenhum repasse, nenhuma verba de custeio para os serviços em Leopoldina, a Prefeitura Municipal tem arcado com recursos próprios as despesas com os serviços prestados pelo CAPS e Residência Terapêutica. “Se realmente não houver mudanças e o serviço não começar a receber os repasses a gente vê que será uma situação bem complicada, inviável para o município. O nosso prefeito, Dr. José Roberto e a Secretária Municipal de Saúde, Lúcia Gama não têm medido esforços para a continuidade dos serviços, mas precisamos de mais, precisamos do aporte do governo federal”, alertou Ana Carla, que fez um apelo para que toda sociedade abrace essa causa. “Não podemos imaginar o grande retrocesso que será para a saúde mental a volta dos hospitais psiquiátricos”, concluiu.

 O psicólogo Hugo de Souza Magalhães (foto), de Cataguases, que já trabalhou no CAPS daquela cidade, estava em atendimento no seu consultório, localizado na região central de Leopoldina, onde atende duas vezes por semana. “O grupo estava passando e no início percebi aquele burburinho.

Quando ele chegou mais perto e eu escutei o grito de guerra: ‘Abraço a RAPS, não deixem fechar o CAPS.’ Nesse momento eu abri a porta do consultório e ali eu também gritei e me uni à causa, vim acompanhando o grupo. Estive na RAPS por um tempo e brigar pela luta antimanicomial é um militância, é algo que fica, é algo que não passa”, disse o psicólogo.

Vários pacientes fizeram questão de deixar sua opinião sobre o CAPS.

Sra. Denise da Silva Faria, 52 anos, que mudou-se de Cataguases para Leopoldina e mora sozinha, disse que adora e ama o CAPS. “Nós não somos passarinhos para viver na gaiola, nós somos seres humanos.

 

Joarês Mariano de Oliveira, 37 anos, mora no Bairro Roque Schettino (Limoeiro) e está prestes a completar um ano que freqüenta o CAPS e disse que gosta muito do local: “CAPS é vida, é felicidade. Não quero que feche. Sinto-me muito bem participando do tratamento junto com meus amigos. Me dou bem com a família.”
“Lá tratam a gente muito bem. Eu cheguei no CAPS agressiva, ouvindo vozes e agora, graças a Deus, não escuto mais as vozes, deixei de ser agressiva, acabou isso tudo. Agradeço a eles que me acolheram”, afirmou Sônia dos Santos Nascimento, de 48 anos.

 

Marcela Aparecida de oliveira dos Santos, 35 anos, disse: “Eu me sinto muito feliz, muito realizada participando do CAPS. Passei por um momento muito triste, fiquei sem o convívio com meu filho por um bom tempo, meu relacionamento com o ex-marido não foi muito legal. Depois que eu entrei no CAPS eu me senti amada, realizada, eu fui abraçada. Me senti a mulher mais feliz do mundo, estou muito feliz, renovando a minha vida social com o CAPS. Estou grávida, estou renovando a minha família. Futuramente irei casar. Estou muito feliz e desejo do fundo do meu coração muito amor para todas as pessoas. CAPS é liberdade, é muito bom.”

Aos 54 anos, Geraldo Diana Louzada, que reside na Rua Carlos Schettino, no Bairro São Cristóvão, considera que é ótimo conviver no CAPS: “Realmente, a gente se sente feliz lá. Esses manicômios só trazem transtorno para as pessoas. Já estive no manicômio em 2000 e em 2014. Hoje no CAPS é tudo normal, tudo livre. Temos horário para ficarmos conversando livre. Convivo com as pessoas, ando socialmente na rua, fiz amigos lá. Me sinto bem, participo de tudo que me convidam e tenho amizade lá sabe, então eu não quero que acabe, faço votos que não acabe.”
Natural de Argirita, Luiz Braz Medeiros Alexandre, de 59 anos, está em acolhimento 24 horas no CAPS, que é referência para 15 cidades da macrorregião da GRS de Leopoldina. “Me sinto em casa ou até melhor que em casa. Já estive internado em uma Clínica. O Caps é muito melhor que a Clínica (tratamento, comida, a maneira como somos tratados, remédio e banho na hora certa, café, participo de todas as atividades e quem não quiser participar não é obrigado)”, informou, dizendo que tinha problemas de relacionamento com as pessoas, até mesmo para entrar numa loja para comprar alguma coisa: “Eu tinha que pedir alguém para entrar pra mim porque eu não me sentia bem lá dentro da loja, parecia que todos estavam olhando pra mim.”

Quem também fez questão de participar da reportagem foi Sebastião Roque da Costa, de 54 anos. Ele já esteve internado na clínica e revelou que agora está mais contente no CAPS.

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