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“Isca de Peixe, Nheco”

“Isca de Peixe, Nheco”


O encontro marcava uma grande confraternização, era a apresentação de uma nova agregada, recém chegada dos confins da região da Braúna, circunvizinha de Argirita, aliás, uma bela nativa, estreando na noite Juiz de Fora, e como não poderia deixar de faltar em todo grande momento, “Os imprevistos acontecem…”

Após uma rodada de “drinks”, entre destilados e fermentados, comemorada pelos aspirantes a ébrios, a fome começou a “bater na porta” do estômago, que se manifestava através de ruídos pouco sonoros, sem contar que hidratação etílica, muitas das vezes, desidrata, “bebes sem comes” nem sempre dão muito certo, o negócio era resolver o impasse, ‘Comer’ com “C” maiúsculo ou só ‘beliscar’ com “b” minúsculo, “eis a questão”.

Após uma sondagem preliminar do cardápio, concluíram que o “beliscão” seria mais aprazível, se não para o paladar, pelo menos para o bolso…

O estabelecimento, o mais badalado bar/restaurante da “Zona Sul” de Juiz de Fora, reconhecido com tarja de “3 estrelas” nas grandes revistas de Turismo e Viagem, oferecia opções pouco convidativas ao padrão de consumo menos favorecido do animado grupo, e o jeito foi combinar a chamada opção por exclusão.

Como a realidade era consensual, não restaram muitas alternativas para saciar a ansiedade, e acabaram sugerindo, após inúmeras simulações e intenso debate, e aparentemente para a consolação geral, uma convidativa porção de “iscas de peixe”. Feito o pedido, a interlocutora do grupo, disparou ainda uma última reivindicação ao atendente: “Traz ela bem fritinha”.

Tudo levava a crer que os ânimos pareciam serenados, resignados que estavam após a exaustiva enquete, só que a “parecência” não estava tão serena como imaginavam, se deram conta que a nativa havia modificado radicalmente as suas feições, com sucessivas “caretas e bocas”, a até sua pele outrora muito alva, ia tomando contornos de cor púrpura muito intensa, e apesar do calor, suas mãos estavam “geladas”, apresentando um quadro de sudorese, a apreensão se instalou rapidamente: Será uma crise de hipotensão ou hipoglicemia?? Ela parecia entalada, ruborizada e atônita, como se alguma coisa a sufocasse, queria gritar e não conseguia, mas num ímpeto de libertação, resolveu colocar a sua indignação “para fora”, “soltando os bichos” encima do grupo: “Vocês pensam que eu sou boba, mas estão enganados, me lembro bem lá na roça, que quando a mãe queria pescar, ela mandava: “O fia, vai pegar uma isca de peixe, não demora”. Aproveitando o desabafo, foi logo avisando: “Não tem Cristo que faça eu comer uma Isca de Peixe”, “eu não moro na China pra comer esse tipo de coisa”, bradou, absolutamente determinada e ofendida nos seus brios.

As pessoas tentaram de todas as maneiras dirimir o “mal-entendido”, esclarecer a acepção do petisco, mas ela estava irredutível: “Não adianta, que vocês não vão me enrolar”, demonstrando um poder de decisão, até então desconhecido para os mais conhecidos. Nada conseguia dissuadi-la.

A confusão estava armada, sem qualquer expectativa imediata de solução, o jeito era aguardar que o “tira-gosto” fosse servido, quem sabe ela não se convencesse que “isca de peixe” é um prato saboroso ou pelo menos “comível”.

Dito e feito, o polêmico prato foi servido, e com muita dificuldade, foi gradativamente se ambientando com o odor da iguaria, já não apresentava tantas expressões de desdém, e pra não demonstrar uma intransigência absoluta, acabou cedendo aos insistentes apelos e experimentou uma prova do aperitivo, mormente toda a resistência: “É, até que não é dos piores não”, balbuciou, ainda em tom de desconfiança.

Exausta, pelo desgaste da situação, mas ao mesmo tempo satisfeita, pela não reprovação do quitute, num ato sublime de humildade, resolveu se redimir junto aos presentes: “Gente, desculpa, eu não fiz por mal, é que eu sempre achei que peixe só comia minhoca”. Só restou ao seleto grupo, “Chorar de Alegria” e registrar nos “Chips” de suas vidas, esse inusitado episódio.

Publio Cunha