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Porto Solidão

O VIGILANTE ONLINE

E a vida já não é mais vida.  No caos ninguém é cidadão.
As promessas foram esquecidas. Não há estado, não há mais nação.
Perdido em números de guerra. Rezando por dias de paz
Não vê que a sua vida aqui se encerra com uma nota curta nos jornais.
Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo, Sem saber o calibre do perigo.
Eu não sei d’aonde vem o tiro!

 Paralamas do Sucesso

Por Alessandro Rubim*

A calma manhã de sábado na Praça Afonso Pena, na Tijuca, me remete a meus passeios na infância com meus pais na Praça da Bandeira em Leopoldina. Em um dos aparelhos da academia publica da praça um rapaz treina e dança numa coreografia divertida. Senhores e Senhoras sentados no banco da praça conversam, tomam sol, leem o jornal. Pessoas praticam esportes e crianças brincam alegremente no parquinho sob o olhar da estatua de Tim Maia. Um velho de barbas longas e olhos distantes parece meditar ou refletir, não saberei nunca.

Eu estou com Bruno que se diverte na praça, cumprimenta a todos e vai espalhando sua simpatia. Ao ver esse cenário temos a certeza de que a vida é bela, de que ela vale a pena, de que a paz e a tranqüilidade são essenciais.

O cenário alegre e tranqüilo da praça aumenta quando sentado no banco, para tomar um água de coco, sou surpreendido pela bela voz da vendedora, uma senhorinha, franzina, que canta Porto Solidão de Jessé. A bela musica combina com o momento, com a praça, com os sorrisos e a tranqüilidade do local.  O Rio de Janeiro até parece um local em paz.

No mesmo dia, ontem, a noite vou a padaria próxima de meu apartamento, a ação que presencio é rápida, homens com metralhadoras rendem os ocupantes de um veiculo na esquina da minha casa e levam seu carro. A verdade nua e crua está ali, vivemos em meio a guerra. No mesmo local que vi o assalto a alguns meses um jovem motorista de Uber foi morto cruelmente.

Ver a violência tão próxima e ocorrendo no mesmo local em que cenas belíssimas foram presenciadas pela manhã trazem uma reflexão obrigatória quais as razões para essa guerra cruel e sangrenta que faz vitimas inocentes a cada dia?

A violência tem feito parte do cotidiano da humanidade desde os seus primórdios e, embora tenhamos avançado cientifica e tecnologicamente, ainda nos falta muito para uma renúncia definitiva a qualquer ato violento, mas como estamos permitindo que ela aumente tanto sem que a sociedade reaja de forma eficiente.  

A explicação mais freqüente para a violência é a pobreza que quase sempre é apresentada como causadora única da violência, mas acredito que ela não é a única culpada pelo aumento da violência. De fato, jovens que vivem em comunidades carentes são aliciados por traficantes e vêem no crime uma opção de vida. Contudo, o aumento da violência ocorre por uma combinação de fatores entre eles a desigualdade social, o enfraquecimento da polícia, e o “pouco caso” de alguns setores do poder público, que ao invés de tentar combater a violência estão se tornando incapazes de mediar conflitos, desrespeitando os direitos dos cidadãos ao invés de protegê-los.

É triste afirmar que todos que estavam presentes hoje pela manhã na Praça Afonso Pena corriam risco de serem vitimas da guerra desenfreada da violência. Uma bala perdida, um bang-bang entre policiais e bandidos, um assalto… o certo é que estávamos ali todos expostos ao risco eminente. A paz da Praça não existe!   

Será que o senhor de barbas longas e olhar reflexivo já pensava sobre isso, feito meu avô que com sua bengala media a realidade, enquanto nós sonhávamos com uma ilusão feliz.

Além de falhar nos fatores preventivos – fornecendo educação, moradia e emprego para famílias carentes – o Estado também falha na repressão ao crime organizado. As polícias civil e militar no Brasil são mal remuneradas e conhecidas pela corrupção e truculência. Por outro lado, o sistema penitenciário, que deveria contribuir para a recuperação de criminosos, tornou-se foco de mais violência e criminalidade, em cadeias e presídios superlotados.

Falo do Rio de Janeiro, porém a morte violenta de jovens em nossa Leopoldina me remete a idéia que mesmo em nossa terra a guerra está presente. Silenciosa, enquanto mata jovens de periferia e pobres, mas até quando ela permanecerá silenciosa e vitimando só os menos favorecidos? Precisamos romper este silêncio e tentar evitar que mais famílias continuem a sofrer a dor da perda em uma cidade que deveria ser mais segura que um grande centro.

Para mim o que ficou da Praça foi a canção da velha vendedora de água de coco, que agora interpreto como um grito de resistência e revolta, uma homenagem a beleza que deveria ser permanente e não roubada pela guerra silenciosa da violência urbana. Porto Solidão é mais que uma música, é um desses momentos nos quais a Beleza, como uma deusa irresistível, traz nas mãos a lâmina da dor e o ritual segue implacável, uma estranha subversão da lei da procura do prazer: Se um veleiro Repousasse Na palma da minha mão Sopraria com sentimento E deixaria seguir sempre Rumo ao meu coração, Meu coração, A calma de um mar, Que guarda tamanhos segredos, De versos naufragados, E sem tempo…Rimas, de ventos e velas, Vida que vem e que vai, A solidão que fica e entra, Me arremessando Contra o cais…

Para mim apenas o Amor pode nos salvar do caos e da guerra da violência desenfreada e cruel que nos é imposta e adoece a sociedade colocando em risco a vida, tão rara e bela, e como disse o poeta Drummond: o amor resgata a pobreza, vence o tédio, ilumina o dia e instaura em nossa natureza a imperecível alegria”.

PS: Dedico este texto ao pequeno Muriel e a seus pais, acredito que quem nasce lutando pela vida é predestinado a auxiliar na construção de um mundo melhor e mais justo. Força Muriel!

*Alessandro Rubim Barbosa é advogado.

DOCTUM OLIMPÍADA ACADÊMICA