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Quando o Carnaval Chegar

Quando o Carnaval Chegar

E a minha alma alegra-se com seu sorriso, um sorriso
amplo e humano, como o aplauso de uma multidão.
Fernando Pessoa

Orfeu da Conceição, Djanira (1956)A missão de ser pai tem me ensinado muitas lições. Interessante que alguns me diziam que eu teria alguém para cuidar, ensinar,  encaminhar, amar… E eu, no inicio, acreditei nisso. Estava enganado, justamente o contrário tem ocorrido. Bruno, em dez meses, me ensinou muito mais que eu a ele.

A mais recente lição dele me foi aplicada, hoje, ao levá-lo a um bloco de carnaval aqui no Rio. Com sua natural inocência e alheio ao caos do mundo, com gestos simples, Bruno consegue estar sempre alegre e fazer dessa sua alegria algo contagiante. Tem o talento ou dom nato de distribuir essa alegria por onde passa, seja no supermercado, no shopping, na piscina ou no Bloco de carnaval. Observa tudo e todos, sorri a todos, da atenção sem distinção, tem o poder de contagiar com alegria mesmo quem não tem motivos para sorrir.

Hoje no bloco contagiou várias pessoas, uma senhorinha em especial, que dançou com ele, vibrou com a retribuição de sua atenção e partiu, sambando feliz da vida. Isso é um poder, tornar um instante da vida de alguém feliz. Muitas  vezes tentamos tanto  e não conseguimos sucesso, Bruno, com simplicidade de gestos, cotidianamente faz isso com uma naturalidade maravilhosa.

Mas a lição para mim é que para Bruno é sempre carnaval, ele não esta alegre e “sambando” apenas nesta época do ano, esta sempre assim. Originariamente o carnaval tem um caráter de subversão de papéis sociais que começou no templo de Marduk onde ocorria a transformação temporária do prisioneiro em rei e a humilhação do rei frente ao deus.

Vivemos um momento complicado, sendo sabotados, humilhados e inferiorizados por aqueles que nos governam, aqueles que controlam as fontes de riqueza e poder que nos prometem com suas reformas piorar ainda mais nossa caótica realidade. E dessa realidade surge a violência que nos aprisiona  e assusta.

E diante desse quadro social a lição de alegria de Bruno me parece ideal, necessária, fortalecedora, para que sejamos engajados em resistir e lutar contra as transformações que querem nos impor para socialmente nos empobrecer ainda mais, porém não podemos perder a alegria.

É esse o sentido que falo de “carnaval”, afinal dançar é lutar, e lutar é dançar. Para resistir a realidade dominante neste momento é preciso ser como Bruno ter a alegria dentro de si e extraí-la para contagiar as outras pessoas. Ser “carnaval” dentro de si o ano todo, afinal como disse o Poetinha: “Alegria é a melhor coisa que existe! É assim como a luz no coração.”

Não podemos deixar que nossa alegria seja alienada, ou nos faça apenas sambar, temos, como Bruno, que contagiar com alegria a todas e todos, mas trazer no olhar a certeza de que merecemos um futuro melhor e que para isso é necessário resistir agora.

Como brilhantemente definiu Chico Buarque em sua belíssima canção “quando o carnaval chegar “: “E quem me ofende, humilhando, pisando, Pensando que eu vou aturar…Tô me guardando pra quando o carnaval chegar..E quem me vê apanhando da vida, Duvida que eu vá revidar…Tô me guardando pra quando o carnaval chegar…

Que para nós, como para Bruno, seja carnaval todos os dias, que não nos guardemos, e que nosso “carnaval” seja, como é para meu pequeno: elemento de libertação, de catarse, de desregramento e harmonia ao mesmo tempo e que nos leve a uma outra realidade, ao lugar da utopia, onde a vida é plena e livre. Que a nossa alegria carnavalesca diária nos traga a diminuição da desigualdade e a comunhão universal.

Alessandro Rubim Barbosa é advogado.

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