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Quando o Carnaval Chegar

Quando o Carnaval Chegar

E a minha alma alegra-se com seu sorriso, um sorriso
amplo e humano, como o aplauso de uma multidão.
Fernando Pessoa

 A missão de ser pai tem me ensinado muitas lições. Interessante que alguns me diziam que eu teria alguém para cuidar, ensinar,  encaminhar, amar… E eu, no inicio, acreditei nisso. Estava enganado, justamente o contrário tem ocorrido. Bruno, em dez meses, me ensinou muito mais que eu a ele.

A mais recente lição dele me foi aplicada, hoje, ao levá-lo a um bloco de carnaval aqui no Rio. Com sua natural inocência e alheio ao caos do mundo, com gestos simples, Bruno consegue estar sempre alegre e fazer dessa sua alegria algo contagiante. Tem o talento ou dom nato de distribuir essa alegria por onde passa, seja no supermercado, no shopping, na piscina ou no Bloco de carnaval. Observa tudo e todos, sorri a todos, da atenção sem distinção, tem o poder de contagiar com alegria mesmo quem não tem motivos para sorrir.

Hoje no bloco contagiou várias pessoas, uma senhorinha em especial, que dançou com ele, vibrou com a retribuição de sua atenção e partiu, sambando feliz da vida. Isso é um poder, tornar um instante da vida de alguém feliz. Muitas  vezes tentamos tanto  e não conseguimos sucesso, Bruno, com simplicidade de gestos, cotidianamente faz isso com uma naturalidade maravilhosa.

Mas a lição para mim é que para Bruno é sempre carnaval, ele não esta alegre e “sambando” apenas nesta época do ano, esta sempre assim. Originariamente o carnaval tem um caráter de subversão de papéis sociais que começou no templo de Marduk onde ocorria a transformação temporária do prisioneiro em rei e a humilhação do rei frente ao deus.

Vivemos um momento complicado, sendo sabotados, humilhados e inferiorizados por aqueles que nos governam, aqueles que controlam as fontes de riqueza e poder que nos prometem com suas reformas piorar ainda mais nossa caótica realidade. E dessa realidade surge a violência que nos aprisiona  e assusta.

E diante desse quadro social a lição de alegria de Bruno me parece ideal, necessária, fortalecedora, para que sejamos engajados em resistir e lutar contra as transformações que querem nos impor para socialmente nos empobrecer ainda mais, porém não podemos perder a alegria.

É esse o sentido que falo de “carnaval”, afinal dançar é lutar, e lutar é dançar. Para resistir a realidade dominante neste momento é preciso ser como Bruno ter a alegria dentro de si e extraí-la para contagiar as outras pessoas. Ser “carnaval” dentro de si o ano todo, afinal como disse o Poetinha: “Alegria é a melhor coisa que existe! É assim como a luz no coração.”

Não podemos deixar que nossa alegria seja alienada, ou nos faça apenas sambar, temos, como Bruno, que contagiar com alegria a todas e todos, mas trazer no olhar a certeza de que merecemos um futuro melhor e que para isso é necessário resistir agora.

Como brilhantemente definiu Chico Buarque em sua belíssima canção “quando o carnaval chegar “: “E quem me ofende, humilhando, pisando, Pensando que eu vou aturar…Tô me guardando pra quando o carnaval chegar..E quem me vê apanhando da vida, Duvida que eu vá revidar…Tô me guardando pra quando o carnaval chegar…

Que para nós, como para Bruno, seja carnaval todos os dias, que não nos guardemos, e que nosso “carnaval” seja, como é para meu pequeno: elemento de libertação, de catarse, de desregramento e harmonia ao mesmo tempo e que nos leve a uma outra realidade, ao lugar da utopia, onde a vida é plena e livre. Que a nossa alegria carnavalesca diária nos traga a diminuição da desigualdade e a comunhão universal.

Alessandro Rubim Barbosa é advogado.

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