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Vida de gado, povo marcado, povo feliz…

Vida de gado, povo marcado, povo feliz…

… vida de gado, povo marcado, povo feliz…

Cláudio Réche Iennaco*

É com essa frase do compositor nordestino Zé Ramalho que tentamos ilustrar certos aspectos de instigante valor sociocultural desde que pudemos nos considerar como um agrupamento organizado e submisso a padrões éticos e de direito.

Admirável Gado Novo é o nome da música, lançada em 1980, incluída no disco A peleja do Diabo com o Dono do Céu. É uma clara e evidente alusão à obra do filósofo inglês Aldous Huxley (1894 – 1963) Brave New World, ou Admirável Mundo Novo em português, publicada em 1932. Este romance narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e também condicionadas por influência psicológica a viverem em harmonia e em respeito as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. Os cidadãos são distribuídos em classes, onde as funções sociais e de produção já são previamente definidas desde a geração dos indivíduos.

Os membros da sociedade desse espaço criado por Huxley não possui sentimento ou ética religiosa e valores morais que regem a nossa sociedade atual. Além de não haver também o atual conceito de família. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo constante de uma substância química chamada soma, que não possuía efeitos colaterais. As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. Ford é idolatrado como deus, uma vez que é o precursor da produção em série. Em suma, é um lugar e tempo em que as pessoas são invariável e obrigatoriamente… felizes.

Mesmo utópico e invariavelmente impossível, é o futuro (ou mesmo o presente) almejado por nós, fieis seguidores da lei e ordem, como sinônimos de conforto e segurança, garantias de preservação de nossa vida e patrimônio. É patente o conforto proporcionado pela possibilidade de se fazer parte de uma sociedade onde a preocupação com o futuro é desconhecida, uma vez que o presente se define desde a criação do homem, e a aceitação de seu destino é um fato inquestionável, sem que haja a menor possibilidade de contestação da escolha do Estado ao se valer da divisão em castas para sua sociedade.

Porém, em um dado momento, essa feliz sociedade passa a ser contestada por um cidadão, que conhece um selvagem, não adaptado ao sistema. Nascido livre, sem nenhuma manipulação genética, em uma sociedade paralela quase desconhecida e excluída pela sociedade dominante. Há uma sutil semelhança com o que viveu Robinson Crusoé e o selvagem Sexta-Feira, no romance de Daniel Defoe, escrito em 1719.

Mas o que há que se criticar em uma sociedade tão perfeita, onde não se há preocupações com o futuro, não se necessitam competições para ascensão profissional? Nem tampouco se observam questionamentos com religião, pecado, penitências, complexos de culpa e relacionamentos amorosos. Neste ponto, com a falência desse método, exposto em forma de ficção, porém como um possível alerta pelo autor, reforça-se a certeza de que não se é possível interferir tão profundamente na autonomia do ser humano. Não se pode tolher de forma definitiva o chamado livre arbítrio, independente das conseqüências dos atos praticados pelo corpo social desse admirável mundo novo.

Nesta esteira, o ponto a ser intimamente discutido, é o fato de que neste mundo utópico o poder que havia se estabelecido como forma de governo, baseava-se totalmente no adestramento pessoal, numa divisão por classes sociais, em que a produção era valorizada ao extremo, erigida ao estado de religião, com o culto a Ford, criador do sistema de produção em série na indústria.

Mas bastou um único e efêmero momento de questionamento individual para que tudo fosse colocado abaixo, pois que até na sociedade perfeita havia uma mácula indelével evidenciada pela exclusão completa de determinados indivíduos que eram considerados selvagens e não adaptados. Em forma análoga, se considerarmos os não adaptados aqueles que fogem dos padrões exigíveis de consumo, deparar-nos-emos como uma verdadeira sociedade de castas, donde se prescrevem aqueles os guetos, em nada diferindo de nosso mundo atual.

Mas atentemos a um detalhe: é a caricatura que acentua os traços marcantes de qualquer imagem. Tudo o que nos passa despercebido é evidenciado quando o artista expõe a realidade com exagero, acentuando a discrepância. Neste Admirável Mundo Novo de Huxley encontramos o exagero, a forma caricatural de nosso próprio mundo velho, por mais absurda, surreal e irreal que possa nos parecer essa imagem.

Atentos às aberrações e sutilezas, a ficção se saiu bem ao distorcer a imagem da real sociedade da época, mesmo transportando esta imagem para a atual sociedade pós-moderna. De forma mitigada, e com as exceções que só fazem confirmar a regra, o homem sempre teve seu destino predeterminado em função de valores e necessidades sociais. Evidente que hoje falar nisso soa como uma imbecilidade sem tamanho, pois nos é garantido o direito à livre escolha, temos nosso livre arbítrio. Mas a tendência de segregação é tão diluída no nosso contexto social que passamos ao lado dela, vivemos com ela e não a percebemos quando nos deparamos com o estacionamento das universidades federais abarrotado de carros caríssimos dos filhos de autoridades, que recebem ensino de ótima qualidade financiado pelo imposto que todos nós pagamos. Mesmo sendo gracioso o serviço prestado pelas universidade públicas, dificilmente estarão as cadeiras ocupadas em sua maioria pelos que não podem financiar sua própria educação.

Este é um único exemplo dentre inúmeros que podemos lançar mão pra ilustrar essa “teoria”. Outros são a continuidade familiar estabelecida nas esferas políticas brasileiras, onde filho de deputado é deputado, filho de senador é governador e assim por diante, numa clara tendência à predestinação dos descendentes das classes, numa sociedade estratificada, por mais que não se trate abertamente disso.

Em um ângulo diametralmente oposto, podemos lamentar a outra face da moeda, onde a maioria tem de se virar com o que sobra, sendo destinado ao filho do proletariado as filas, a burocracia, a assistência (assistencialismo) e o que mais lhe for permitido. Mas a fim de que passe esta realidade como necessário e imutável status quo, o povo marcado deve continuar feliz. Quanto mais feliz, menos movimento contestador, menos indignação.

Instaura-se, portanto, a política do panis et circenses ou pão e circo. Tal qual no antigo Império Romano, por essa política, o Estado busca promover os espetáculos como um meio de manter o povo afastado da política e das questões sociais. Era antigamente e, ainda é, em suma, uma maneira de manipular a plebe e mantê-la distante das decisões governamentais.

E assim se procede até hoje, onde o povo marcado como gado se submete mansa e inquestionavelmente à felicidade das sobras da elite, travestidas de favores provenientes dos órgãos públicos, quando são obrigação constitucional do Estado Democrático. Enfim, os Césares da antiguidade encarregavam-se ao mesmo tempo de alimentar o povo e de distraí-lo. Havia distribuição mensal de pães, o que assegurava o alimento cotidiano. A plebe romana não deveria bocejar nem de fome nem de aborrecimento. Os espetáculos foram a grande diversão para a desocupação dos seus súditos, e por conseqüência o seguro instrumento do seu absolutismo. Assim sendo, instituiu-se um seguro obstáculo à possibilidade de revolução entre homens desocupados que o auxílio da assistência pública dispensava de procurar trabalho.

Povo marcado, povo feliz.

*Advogado, Contabilista, Professor de Direito Penal e Processo Penal, Pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal, Pós-graduado em Ciências Políticas, Cidadania e Governação. E-mail: c_iennaco@yahoo.com.br